quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

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– É de fato motivo para ter medo. Querer ficar comigo. Não é nada bom para você.

Fechei a cara.

- Eu devia ter me afastado há muito tempo – ele suspirou. – Devia ir embora agora. Mas não sei se posso.

- Não quero que vá embora – murmurei pateticamente, de novo olhando para baixo.

- É exatamente este o motivo para que eu vá. Mas não se preocupe. Sou essencialmente uma criatura egoísta. Quero demais sua companhia para fazer o que deveria.

- Fico feliz por isso.

- Não fique! – Ele retirou a mão, desta vez com mais delicadeza; sua voz era mais áspera do que o normal. Áspera para ele, mas ainda mais linda do que qualquer voz humana.

Era difícil acompanhá-lo _ suas oscilações de humor sempre me deixavam com o pé atrás, tonta.

- Não é só a sua companhia que eu anseio! Jamais se esqueça DISSO. Jamais se esqueça de que sou mais perigoso para você do que para qualquer outra pessoa.Pensei por um momento.

- Não acho que entenda exatamente o que quer dizer... Pelo menos essa última parte. – falei.

Ele olhou para mim e sorriu, seu humor mudando novamente.

- Como posso explicar? – refletiu. – E sem assustar você de novo... Hmmm. – Sem parecer pensar, ele colocou a mão novamente na minha; eu a segurei com força. Ele olhou nossas mãos.

- É incrivelmente agradável, o calor. – Ele suspirou.

Passou-se um minuto enquanto ele organizava os pensamentos.

- Todo mundo gosta de sabores diferentes, certo? – começou ele. – Algumas pessoas adoram sorvete de chocolate, outras preferem morango.

Balancei a cabeça.
- Desculpe pela analogia com comida... Não consegui pensar em outra forma de explicar.

Eu sorri. Ele também sorriu, tristonho.

- Veja bem, cada pessoa tem um cheiro diferente, tem uma essência diferente. Se você trancar um alcoólatra em uma sala cheia de cerveja choca, ele vai ficar feliz em bebê-la. Mas podia resistir, se quisesse, se fosse um alcoólatra em recuperação. Agora digamos que você tenha colocado naquela sala uma taça de conhaque de cem anos, o conhaque mais raro e mais refinado... E enchido a sala com seu aroma quente... Como pensa que ele se comportaria?

Ficamos sentados em silêncio, olhando-nos nos olhos _ tentando ler os pensamentos do outro.

Ele foi o primeiro a romper o silêncio.

- Talvez esta não seja a comparação correta. Talvez seja mais fácil rejeitar o conhaque. Talvez eu deva fazer de nosso alcoólatra um viciado em heroína.

- Então o que está dizendo é que sou seu tipo preferido de heroína? – eu disse num tom de brincadeira, tentando deixar o clima mais leve.

Ele sorriu rapidamente, parecendo gostar de meu esforço.

- Sim, você é EXATAMENTE meu tipo preferido de heroína.

- Isso acontece com frequência? – perguntei.

Ele olhou para a copa das árvores, pensando na resposta.Ele olhou rapidamente para mim, com uma expressão de quem se desculpa.

- Desculpe – disse.

- Não ligo. Por favor, não se preocupe em me ofender, nem em me assustar, o que for. Esse é o seu jeito de pensar. Posso entender isso, ou pelo menos posso tentar. Só explique como puder.

Ele respirou fundo e olhou o céu de novo.

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